Por um Natal Adotivo!

No momento propício do Natal, com a abertura do tempo de reflexão e generosidade que toma as pessoas, é oportuno se sugerir um tema. Nesta época há uma tendência geral à doação, emergindo uma certa solidariedade na sociedade, um arroubo de ternura que traz consigo a necessidade de se fazer “alguma coisa”. São comuns, para atender este desiderato, as campanhas de doação, sobretudo de brinquedos e comida, para atender aos mais necessitados. Nas empresas, instituições e igrejas, se organizam ações de arrecadação de donativos como gesto concreto de preocupação com o outro, muitas vezes invisível durante o resto do ano, agora reconhecido como alguém que precisa de ajuda.

Penso, como Fernando Pessoa, que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Todos os esforços sinceros para minimizar a carência material dos que são vulneráveis resplandecem a luz do Natal e são elogiáveis. Cada cesta básica – melhor que seja mais sortida e recheada do que “básica” – tem seu valor. Contudo, será que a mera doação de coisas, sem embargo de sua importância, supre o vazio do coração de quem quer ser generoso? Esta entrega de bens materiais ou de dinheiro já é suficiente para apascentar as consciências descongeladas pela proximidade do Natal? Não será preciso – e urgente – se buscar fazer “algo mais”?

O Natal talvez possa ser mais efetivo nas nossas vidas se acrescentarmos, sem abandonar os gestos de desprendimento material, algumas notas pessoais de sentimentos. Para além do que “eu posso dar”, essa celebração pode instituir outro pensamento: “quem eu posso ser”, a partir do nascimento do Amor que se comemora no dia 25 de dezembro. Um caminho para esta mudança de paradigma é a reconciliação. Uns dos significados do verbo conciliar é entrar em harmonia com alguém, que pode ser o próximo, um inimigo ou o próprio Deus. Pressupõe a cessação de hostilidades, como é certo, mas também propõe a criação de convivência pacífica, harmonizada por atos de aproximação e tolerância. A partir do nascimento de Jesus, a reconciliação assume seu sentido profundo de criação de aliança, desta feita entre o Criador e os homens, pelo ideal de amor fraterno que deve imperar na caminhada de cada um. Uma aliança nova e eterna, que propõe “amar ao próximo como a ti mesmo”, permitindo que se veja este próximo em sua integridade e completa dignidade, como cada um vê a si próprio com suas necessidades e expectativas de ser compreendido e amado.

Pois o Natal suscita encontros de verdade: mais abraços que presentes, mais olhares ternos que as delícias calóricas, beijos estalados mais que felicitações formais. Entre as misérias e os méritos de nossas almas, o espírito natalino permite que sejamos apenas humanos e que escolhamos o melhor que há em nós. Nos suscita uma transformação que dure, para uma vida aprazível, mais amorosa, mais leve.  O grande presente do Natal para uma pessoa é ela própria, melhor. E existe um Amigo Oculto que nos dá essa prenda. É só pedir.

E tudo isso se deve a uma simples adoção. Um pai com P maiúsculo que tomou uma criança nos braços e se comprometeu amar tão completamente que saiu de si mesmo e enveredou por uma grande aventura, sem garantias absolutas. Um homenzinho comum, carpinteiro, querendo uma vida normal, sem sobressaltos, se agiganta em ações arrojadas e silenciosas para proteger uma criança e a sua mãe, vivendo a cada dia sua emergência. Os atos concretos de amor têm um nome: cuidado. E a adoção é a atitude permanente de cuidado que se elege como modo de vida. A adoção é a luta que se quer lutar. É o afeto em jazida escondida na montanha que deve ser extraído à picaretadas e de mangas arregaçadas. A adoção é o amor que se escolhe amar. Uma opção anímica que, ao dedicar amor ao outro, acaba por trazer mais amor ainda para quem cuida, transformando sua vida e abrindo possibilidades infinitas de afeto. As mãos do jardineiro estão sempre sujas de terra molhada, mas sua alma se delicia com o perfume pressentido e a beleza a ser vista em cada futura flor. Aquele carpinteiro fez isso: largou tudo que tinha construído algumas vezes, mandou a segurança às favas e foi viver radicalmente o afeto. Cuidou do Outro e permitiu que celebrássemos esta festa de carinho até hoje. Bendito seja.

Autor: Sávio Bittencourt