Adotar profundamente

Por Sávio Bittencourt
 
Adotar é amar profundamente. É, a partir de uma decisão madura, colocar grande parte da sua vida ao dispor de outra pessoa, para simplesmente ser pai ou mãe. A adoção permite que amemos pessoas biologicamente diferentes de nós, desenvolvendo um vínculo afetivo por quem não geraríamos de jeito nenhum.

Adotar é proteger profundamente. Escolher ser pai ou mãe por adoção é uma adesão voluntária ao cuidado com o outro, que passa a ser filho. Filho do amor. Esse amor será o combustível que alimentará todas as tarefas da parentalidade, toda a trabalheira que criança dá. O trabalho que vem do amor não é nunca pesado, ao contrário, é uma forma abençoada de se preencher a vida.

Adotar é se comprometer profundamente. A responsabilidade do pai ou da mãe adotiva é fazer a adoção dar certo, mesmo que se trate de uma criança mais velha ou de um grupo de irmãos, superando as dificuldades naturais de adaptação de quem já passou pelo sofrimento do abandono por sua família de origem. Esse período pode exigir um esforço extra, paciência redobrada e firmeza nas decisões.

Adotar é se capacitar profundamente. Vale pedir a ajuda de quem já viveu a experiência, frequentar os grupos de apoio à adoção. Ler bons autores, assistir palestras, inclusive as muitas disponíveis na internet, buscar informações seguras e se fortalecer para viver integralmente essa maternidade/paternidade: o caminho da adoção passa pela preparação e, em função dela, pelo amadurecimento pessoal.

Adotar é ser livre profundamente. Não se deixar contaminar pelo preconceito contra a adoção é a grande liberdade que gera mais liberdade. Os pais adotivos têm em suas mãos a oportunidade de reagir amorosamente às incompreensões de quem tem pré-conceitos com a adoção. A chama do amor de quem adota incinera a pequenez dessas bobagens. Por isso, vestem a camisa da adoção em todas as ocasiões: na família, entre os amigos, na escola, no trabalho, na sociedade. Filho é filho e o que o faz filho é o amor.

Adotar é ser verdadeiro profundamente. Falar a verdade de forma carinhosa para o filho, contar a sua origem, preservar a sua história. Falar de adoção com todos, abertamente, é mostrar que não se tem o preconceito dentro de casa. Os segredos familiares são um desastre, uma bomba-relógio emocional a explodir a qualquer tempo. Os assuntos que não são tratados com naturalidade viram tabu. Criança não é burra: ela percebe do que não gostamos de falar. Fale de adoção, comemore a adoção, agradeça pela adoção.

Adotar é ser humilde profundamente. Se submeter as regras do jogo, se habilitar oficialmente e fazer uma adoção legal, sem trapaças. É preciso, também, estar pronto para aprender o tempo inteiro, durante a marcha da vida, porque as exigências da paternidade/maternidade vão se transformando e exigindo novas respostas. Pode estar a humildade, ainda, na necessidade da prática de uma religião, dividindo-se com Deus as alegrias e angústias do coração.

Adotar é ser feliz profundamente. Adote.