| O tema que vamos discutir aqui é: Segredo e Revelação
na Adoção. Procurarei discutir neste evento questões
levantadas a partir das experiências vivenciadas com os requerentes
(pessoas que desejam adotar) e com as famílias adotivas.
Essas experiências acontecem na Vara da Infância e da
Juventude, onde atuo como psicóloga colaboradora e no meu
consultório particular.
Apesar de ainda hoje nos depararmos com inúmeros casos de
adoção não revelados, os trabalhos que vêm
sendo realizados nesse campo, assim como as divulgações
do tema da adoção na mídia, apontam para a
necessidade da revelação. A questão: contar
ou não contar sobre a adoção parece não
estar mais em pauta. Atualmente está sendo substituída
por 3 perguntas que via de regra estão presentes na maioria
dos casos. Quando contar? Como contar? E quem deve contar?
Sobre quando contar vou relatar um caso exemplar, já conhecido
por muitos, onde uma requerente, sendo já mãe adotiva
de uma menina, buscava adotar sua segunda filha. Com muita propriedade,
no grupo de postulantes à adoção, ela falou:
“Sei que a gente tem que contar a verdade. Eu já decidi.
No dia do casamento, quando ela estiver prontinha para ir para a
igreja, eu conto”. Essa mãe estava acompanhada por
seu marido que demonstrava concordar com essa decisão.
Esse casal possui três filhos biológicos homens e estava
adotando a segunda menina. A adolescente que receberia essa notícia
no dia do seu casamento estava com doze anos e ainda não
sabia da sua condição de adotada. Esse caso real ilustra,
de forma caricatural, que ainda para muitas famílias a adoção
precisa ser revelada num momento de pompa e circunstância,
numa ocasião muito especial, programada, esperada e aguardada
durante uma vida inteira.
É comum escutarmos os pais dizerem que muitas perguntas feitas
pelos seus filhos são automaticamente respondidas com: um
dia eu te conto ou quando você crescer eu te falo ou ainda
você ainda é muito pequeno para entender, adiando assim
tocar em temas dolorosos para toda a família.
Trabalhando com o casal acima, a mãe colocou que esse seria
o melhor dia para a revelação, pois caso a filha se
revoltasse, já teria sua casa, seu marido e não precisaria
mais dela. Num pensamento reducionista, podemos perceber que o medo
que essa mãe sentia de ser abandonada pela filha, após
a revelação, levou-a a escolher um momento de “abandono”
para fazer a revelação. Para ela, assim como para
muitos pais, a filha sabendo da sua condição de adotada
vai querer buscar a família de origem e não mais os
reconhecerão como pais.
Sobre a segunda pergunta: Como contar? Vou exemplificar com o caso
de uma adoção uniparental, onde um casal, casado há
12 anos com dois filhos, um menino de 12 anos e uma menina de 10,
desejava oferecer aos dois filhos os mesmos direitos. O menino era
filho só da mulher e seu marido exercia, emocional e financeiramente,
a paternidade desta criança desde os seis meses de idade
e buscava adotá-lo. O casal mostrava-se irredutível
quanto a revelação. A mãe trazia para as entrevistas
mágoas e ressentimentos mal resolvidos desde a gravidez quando
fora abandonada pelo genitor da criança.
Com muito sofrimento, relatou que quando engravidara era muito jovem
e namorava o pai biológico da criança há cinco
anos. Ao se depararem com uma gravidez não planejada, o namorado
não quis levar a termo a gestação, pois dizia
que um filho naquele momento estragaria o futuro de ambos. Ele e
sua família sugeriram o aborto e, em conseqüência
de sucessivos desentendimentos, o namoro se desfez. Sentindo-se
apoiada pela própria família, levou a termo a gravidez.
Na ocasião do nascimento do filho, o pai, “obrigado”
pelas famílias, registrou a criança, mas nunca lhe
prestou apoio físico, emocional ou financeiro. O menino cresceu
acreditando ser o requerente o seu pai.
Essa revelação aconteceu na audiência de adoção
onde, para surpresa de todos, o pai biológico compareceu.
Nessa audiência ele contou que havia constituído uma
família, possuía duas filhas e que não gostaria
de contestar a adoção, pois entendia que o requerente
sempre fora um bom pai para o menino. O objetivo da sua presença
na audiência era adquirir o direito de conhecer o menino e
um dia apresentá-lo às suas filhas. O juiz, preocupado
com toda a situação, encaminhou o caso para a Psicologia,
onde pude realizar um trabalho com essa família.
A situação relatada traz de volta aquele velho ditado:
“mentira tem pernas curtas”. O casal que sempre lutou
para “apagar”, “esquecer”, esse fato foi
surpreendido com uma revelação inesperada, onde todos
os envolvidos ficaram atônitos. O menino, além de saber
da sua condição de adotado, conheceu o pai biológico
num local e num momento inadequados, distante do seu mundo familiar.
A meu ver, esse exemplo mostra claramente que o segredo está
relacionado à experiência afetiva da vergonha e a uma
situação passada mal elaborada. Essa família
desejava se proteger do estigma de uma vida sexual e uma gravidez
precoces e de um abandono inesperado. Os segredos, via de regra,
encobrem acontecimentos carregados de marcas dolorosas e negativas.
Para Evan Imber Black, autora, juntamente com outros colaboradores,
do livro: Segredos na Família e na Terapia de Família,
o melhor momento para se contar ao filho sobre sua adoção
é: “Olá, como vai? Você é o meu
filho adotivo!
Chegamos à terceira pergunta: Quem deve contar? Essa questão,
necessariamente, deve vir acompanhada de uma anterior: Quem tem
o direito de saber? A história de adoção de
uma pessoa é a sua história de vida. Para responder
a questão: Quem sou eu? É necessário conhecer
o passado. Só assim poderemos vivenciar o presente e passar
deste para o futuro. O adotado tem o direito de saber da sua história.
Quando sua origem é mantida em segredo gera-se uma sensação
de vazio, de estranhamento e de incompletitude.
Uma requerente, durante o processo de habilitação
para adoção, afirmou que nunca esconderia de seu filho
a sua adoção. Sob o impacto de forte emoção,
relatou que era adotada e que desde pequena sentia-se como uma detetive
na própria família. Fora adotada com dois anos de
idade e logo após a sua adoção, sua mãe
engravidara. Seus pais tiveram mais dois filhos. Embora a diferença
física entre os irmãos, por si só, não
denunciasse a sua adoção sentia que recebia um tratamento
diferenciado. Segundo ela, todos os assuntos referentes à
gravidez, à amamentação e aos seus primeiros
anos de vida eram evitados na família. Não entendia
porque em seu álbum de fotografias não existiam fotos
de quando era bebê. Todas as justificativas apresentadas não
eram suficientes para satisfazer a sua curiosidade.
Por ocasião dos aniversários de casamento de seus
pais, o ano do casamento era sempre assunto delicado, desviado e
as contas não batiam. Quase sempre se confundiam com a data.
Fazia perguntas e as respostas não a convenciam. Na adolescência,
depois de muita terapia, sentiu-se fortalecida e tomou coragem para,
segundo ela, “imprensar” sua mãe para que lhe
contasse o que ela já desconfiava.
Os pais imaginam que podem manter informações em segredo
a fim de proteger o filho ou a si mesmos do que consideram uma história
dolorosa e de conhecimento desnecessário, mas na realidade
acabam por gerar ansiedade, medo e falhas na comunicação
da família. Muitos assuntos, que podem trazer à tona
o segredo, viram tabus e a lealdade e a confiabilidade dos membros
da família acabam ficando prejudicadas.
Acredito que os pais são as pessoas mais indicadas para contar
aos seus filhos sobre sua adoção. A narrativa da história
da adoção antecede esse fato em si, que via de regra
envolve impossibilidades. Impossibilidade da família biológica
de criar seu filho e impossibilidade da família adotiva de
gerar aquela criança. Caso essas impossibilidades tenham
sido vividas com preconceito, vergonha ou sentimentos de desvalorização,
certamente a revelação vai ser adiada, tornando-se
cada vez mais difícil para a família lidar com esse
tema.
É importante ressaltar que nenhuma das famílias que
tive oportunidade de atender tinha intenção de mentir
para os seus filhos. A princípio omitiam esse fato e aos
poucos, para manter a omissão, surgiam pequenas mentiras
que avançavam pouco a pouco a cada questionamento da criança
e por fim se transformavam em histórias falsas. Submersos
numa história fictícia, sentiam-se presos a uma mentira
e sem condições nem coragem de enfrentar a reação
que imaginavam que o filho poderia ter caso a descobrisse.
Inicialmente, temiam a revelação da adoção,
agora esse medo estava acompanhado da constatação
de que mentiram para o filho apesar de sempre pregarem a importância
da verdade.
Para Evan Imber Black, qualquer segredo divide a família
colocando de um lado os que sabem e do outro os que desconhecem
o segredo. Essa divisão por si só pode provocar sintomas
de comunicação em todo sistema familiar. Muitas vezes
o adotado é o único que não sabe da sua origem.
Sente-se isolado, pois as repostas que necessita não podem
ser encontradas nos livros, nem nas conversas secretas com os amigos.
Certamente, em algum momento, involuntariamente ou não, alguém
pode revelar o segredo, e dessa forma, produzir efeitos devastadores
para a pessoa adotada e sua família.
Um segredo é algo escondido ou encoberto. Os segredos positivos
estão relacionados a presentes, festas surpresas, notícias
agradáveis. Esses geralmente são guardados por pouco
tempo e quando descobertos, trazem alegria e prazer. Os segredos
que se mantêm por muito tempo sugerem situações
ruins, negativas, que não podem ser ditas. Freqüentemente,
explicações falsas e mais aceitáveis socialmente
são oferecidas. Um aspecto importante do segredo é
a suposição fácil de que, se não se
pode saber algo, sobretudo sobre si mesmo, isto deve ser mau (fala
de um filho adotivo no livro Os Segredos na Família e na
Terapia Familiar - capítulo Segredos da Adoção,
pg 95). Sabemos que aquilo que mais nos amedronta, também
é o que mais nos persegue. Dolto diz que só podemos
nos defender daquilo que conhecemos.
Os segredos “ruins” prejudicam a intimidade, geram silêncios
e a negação da realidade. Para que a adoção
possa ser tratada de forma clara, primeiramente, faz-se necessário
a aceitação de uma forma diferente de filiação.
Conclusão:
É indiscutível a necessidade e o direito de a criança
tomar conhecimento de sua origem e se apropriar da sua história
de vida. Indiscutível também é a dificuldade
que envolve as famílias adotivas no momento da revelação.
Karpel (1980) aponta que, quando existe um segredo, deve-se sempre
perguntar quem está sendo protegido, por quem e de quê.
Também podemos questionar quem na família é
a favor ou contra contar?
Compreendendo esses dilemas, respeitando as dificuldades vivenciadas
pelas famílias, podemos pensar qual é o nosso papel?
Acredito que o nosso papel deva ser principalmente acolher e respeitar
os sentimentos de cada membro da família e cuidadosamente
ajudá-los a valorizar a sua história.
O papel do técnico do judiciário, nos processos que
envolvem o segredo na adoção, a meu ver, é
de suma importância para a saúde da família.
Primeiramente é preciso que o profissional elabore a sua
crença pessoal sobre segredo e revelação da
adoção. Caso concorde com a necessidade da revelação
e conhecendo a força de um processo, esse profissional deve
partir para estimular e auxiliar a família nessa difícil
tarefa. A própria família vai apontando o caminho
e o tempo necessários para enfrentar esse momento tão
“temido”.
Os motivos pelos quais o segredo se funda, variam de caso para caso
e não devem ser generalizados, assim como a forma que as
famílias vão encontrar para concretizar a revelação.
Estou atendendo um caso onde o pai traz consigo o desejo de revelar
à filha de 14 anos sobre sua adoção, principalmente
depois que a novela, O Clone, da rede Globo de televisão,
levantou inúmeras polêmicas sobre filiação
e exames de DNA, mas não admite contar à sua mãe,
avó da criança, por acreditar que ela valoriza demais
a hereditariedade. Além disso, esse pai teme decepcionar
a própria mãe e sustenta o fato de que ela não
tem idade para entender que ele mentiu todos esses anos para proteger
toda a família.
Na minha experiência, após a revelação
da adoção, o sentimento predominante é de alívio.
Costumo ouvir: “agora posso dormir tranqüilo” ou
“parece que tirei um peso da minha consciência”.
Sabemos que a revelação da adoção não
é suficiente em si mesma. Ela é o primeiro passo para
um canal de comunicação aberto capaz de favorecer
uma relação de confiança e respeito. Muitas
perguntas surgirão a partir desse fato. Ninguém pode
garantir que as conseqüências da revelação
serão sempre positivas. Às vezes, a revelação
é um desejo antigo da família e é vivenciada
como um alívio para todos. Outras vezes, a partir da revelação,
surgem outras revelações que precisam ser trabalhadas
e elaboradas, pois estão carregadas de sentimentos hostis
“congelados”.
Negar ou esconder a adoção não significa que
ela não exista. Precisamos ter claro que um passado não
pode ser mudado. O que podemos mudar é a forma de lidar com
ele.
por Solange Diuana
Psicóloga, Terapeuta de Família, Especialista em Psicologia
Jurídica,
professora da Universidade Santa Úrsula
Palestra proferida na I Jornada sobre Adoção
da Comarca de Petrópolis – abril de 2002
|